Sexta-feira 13, meia noite e treze, não por acaso, de agosto.
A sutileza, é que fazia 13 graus.
Pela última vez o perfume do maior amor jamais sonhado se fez pairar em seu minúsculo lar...
Ele, entrou como quem arromba o ar.
Ela, abriu e nem sorriu.
Ele, ofegante em sua dor, corajoso partiu.
Ela, corajosa em sua dor, ofegante consentiu.
Sem um toque, sem vacilo, esperança ou adeus.
Apenas silêncio.
Embora ambos soubessem que jamais seriam outra vez os dois...
Jamais sonhos, jamais planos, jamais banhos. Jamais olhares. Jamais cúmplices.
Jamais.
Jamais carinho, nunca mais o ninho, o colo, o modo de amar, o encaixe, o sonhar de olhos abertos, o vagar por um mundo de sensações cremosas, flutuantes, vibrantes e cheia de música.
Nunca mais.
Nunca mais. Tão solene e definitivo. Tão eloquente em seu vazio. Tão indiscutível.
Tamanha a dor e o ruído e o estrondo dentro do peito, que ela não podia ouvir mais nada.
Só um pesado e ensurdecedor silêncio.
Não conseguia chorar e não podia falar. Não havia o que dizer.
Pedir pra que ele não fosse, sabendo que não havia escolha, se enganar, se rasgar?
Permitir as contrações da alma? O avesso do ventre?
Implorar perdão e dizer o quanto temia a solidão?
Sim. Porque agora que conhecera o amor passou a temer a solidão, a única certeza...
Contemplar o espaço vazio, depois que o ar outrora rasgado, parasse, e nada, nada se movesse ali, seria pavoroso.
Ela, previa...
Ele, ocupara muito espaço. Era grande demais.
Preenchia os dias com histórias e as noites com canções. As melhores canções que ela conhecera...
Mas em minutos tudo seria silêncio e escuridão. Densa. Pesada e longa seria a noite.
Mais um suspiro...
Ela, sentia o corpo retesar e o peito contrair em uma dor indescritível. E não era pelo frio.
Boca seca, amarga, dormente... Olhar vítreo, fixo e vazio...
Diante das piores fatalidades parecemos sempre fortes e inertes. Mas é só pra sobreviver...
Mediu pela última vez seu amor, o único, o perfeito, o amor dos seus sonhos, enquanto ele fazia as malas, juntava o que sobrou dessa história, rasgava fotos e vasculhava o passado em busca de algum pertence. Como quem passa a limpo um rascunho...
Ela, só conseguia olhar... Sem forças até pra verter as lágrimas mais profundas... Vindas de uma alma encharcada... Pulsação desconexa... E dor... E aperto no peito... E não conseguia crer no fim... Não assim.
Tanto pra sempre... Tanto amor. E agora só dor.
Ele, esqueceu uma única foto. A mais doce e especial, feita em um momento de paixão e certeza de que o amor seria eterno. Ali, quieta, amarela, esquecida em um canto perto da cabeceira. Ficou. Testemunha abandonada do desamor.
Silêncio.
Todas as lembranças dançaram em seu pensamento. Cada frame, de cada segundo vivido em suspensão nos últimos anos, cada música, cada saudade suprida, cada comemoração, cada declaração, cada olhar, jantar, intimidade, viagem, frase, banho, cumplicidade, despertar, cada abraço, cada riso, cada esperança, cada café da manhã, cada urgência, cada flor...
Tudo!
Tudo percorria agora a lembrança desse amor interrompido, sonho despedaçado...
Não conseguia lutar. Os segundos seguiam com lenta cadencia e gosto de fel. Se calava. E calava em seu seio lágrimas pulsantes que guardaria pra quando ele não estivesse mais ali.
Com ele dançara e conhecera o mundo das festas, da burguesia feliz, da família perfeita... Como voltar agora pro seus mistérios e pro seu mundo cheio de melancolia e cicatrizes?
Voltaria a pisar o chão ou criaria asas pra voar sobre as redes?
No silêncio da noite fria e fatal não pensava no futuro.
Apenas no futuro que não existia mais desde esse instante.
Malas nas mãos, ele mal sabia que carregava com ele um pouco da alma dela. Não podia saber... Mas com ele ia embora o melhor dela.
Levava nas malas também, seu último sopro de ingenuidade, de credulidade, de sonhos de princesa, de amélia e do mais perfeito amor.
Nunca mais uma despedida seria igual.
Nenhum abraço. Nada de desejar felicidade um para o outro.
Ela, não conseguia e ele, não queria.
O tempo congelado e eternizado na mais cortante dor jamais imaginada ou descrita.
O ar suspenso e denso e irrespirável tornava o cenário uma moldura pra um retrato inesquecível de desolação.
Adeus.
Ninguém disse nada pro outro. No entanto o eco seco da porta batendo atrás dela dizia tudo. Denunciava que o pior ainda viria na longa noite que a esperava.
Sozinha.
13 graus.
O torpor do corpo deu lugar a um tremor nervoso.
Chorar não conseguia. Respirar também não.
Olhou em volta.
Sabia que jamais o ar seria preenchido por aquela voz poderosa e aveludada e rouca e alta, por suas risadas histéricas, por suas piadas bobas, por seu jeito carinhoso, por sua música alegre, por seu cheiro singelo, por seu olhar ingênuo, seus beijos únicos, os melhores, os mais profundos, sinceros, longos, macios, sedutores, inebriantes, esperados e doces.
Só ele despertou desejos e sonhos, eternos.
Mas não foram felizes pra sempre...
Agora nada disso existia mais.
Viu-se sozinha.
E soube que um ciclo se fechara para sempre.
Sentou sem forças, frágil e sozinha, no escuro, no chão, e chorou.
Chorou muito.
Chorou alto. Como uma criança, chorou, chorou, soluçou e parou e chorou outra vez, chorou toda a dor do mundo. Velou por toda a noite a morte da esperança.
E chorando ainda, se enrolou e se agasalhou pra enfrentar sozinha e para sempre os 13 graus que congelavam sua alma.
Adormeceu, cansada de chorar. E cansada de viver.
E sonhou que nunca mais acordara de um sonho mal.
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